
Dentro de um grande homem, o mesmo menino.
Todo mergulho deriva-se de um salto. Mas quando um grande mergulhador hesita, a vida move o acaso. Quando era criança, Guilherme foi atirado à água. Desesperado, afogou-se. Água e menino misturaram-se por alguns instantes. Sacros instantes. A água, então, saiu dos pulmões, dando a certeza ao menino de que, de volta à vida, essa união voltaria a se repetir várias vezes.
Ápos o incidente, Guilherme buscou aulas de natação. Mais tarde, as aulas de mergulho. O trauma transformou-se em descoberta e a cada novo mergulho, um renascimento. No menino, um sonho: explorar um mar de verdade.
Mergulhando, apurou os olhos. Batizou-os com o belo. Assim, afogando-se no tempo, despertou a sensibilidade para o olhar e transformou-se em um renomado fotógrafo. Entre suas melhores fotos, a água. Sempre ela, como se ainda fizesse parte de seus pulmões.
Por vezes, o mar chama os que conhecem seus segredos profundos. E Guilherme Pimenta parte. Descidas pelas montanhas viram balanço do mar. O vento vira brisa. A cada volta, uma nova descoberta.
Não há dúvidas de que o homem tenha virado fotógrafo. Um grande fotógrafo. Mas o menino, este virou peixe, no exato momento em que se misturou à água. Água e menino, uma coisa só.
Priscila Cunha
